
bendito seja
Na foto uma data. Pai, sorriso discreto, filho, riso infante, Amor-carinho caminha por rostos colados. Salmos ternura, anos flores. Na lápide gasta a data é outra. O filho reza Bendito seja, meu pai, Shema Israel... dignidade Homenagem ao meu pai, o velho Louis Lembro-me de muito pouco
parei de sonhar? Sei que a noite me amedrontava, ele do meu lado vigiava em silêncio, não era de muitas palavras, transmitia segurança, não importa se era baixo, calvo, se portava pince-nez se usava gravata borboleta, chapéu, colete e bengala, foi o condutor da minha alma, vigia da transição à adolescência, astuto, corajoso, criativo, dirigiu o destino da família, trouxe-nos ao porto seguro, desmentiu a crença de que dinheiro aniquila generosidade, pecou por excesso dela, criou a lenda da fortuna inesgotável, perdoei-lhe a inofensiva vaidade, no País do Futuro foi depenado, acreditava na lisura do aperto de mão tão fora de moda como gravata borboleta, colete, chapéu e bengala, não envergou na solidão da viuvez, nem com saudade da filha desterrada, aceitou vida espartana, por vezes sucumbia às lembranças, tirava o lenço do bolso e enxugava uma lágrima, encantava os netos com relatos de luxo e riqueza e então sorria. Sem aviso, sem muitas palavras, foi aos céus com dignidade.
amor filial
Pouco me recordo da infância, nem de um simples enjôo, dor de dente, joelhos esfolados, amigdalite. Carrego este peso insuportável, não consigo colocá-lo no chão, sentar-me em cima, respirar aliviado. O homem na foto é você, elegante, calmo, seguro, um tanto severo. Meu olhar, como um rifle antiquado, atira. O recuo da arma é violento, a dor leva-me de volta à infância, o amor que sinto chegou tardio. |
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