
Patrão Maurício. Remadores Samuel, Iosif, Tomas, Fadah, Walter, Alexandre, Geraldo, Giliat.
Prova Oswaldo Aranha, Lagoa Rodrigo de Freitas, 1942
domingo em botafogo
Manhã de domingo
na enseada de Botafogo
é dia de regata
barcos lado a lado
remos posicionados
mãos crispadas na empunhadura
troncos curvados
pernas dobradas
o coração pulsa acelerado
estrela solitária no peito
aguardamos o som seco do tiro
de partida
seguro os tremores
o sol queima a nuca
tento acalmar a alma
penso, rezo, murmuro
ganhar seria maravilha
eu ainda...
Largada!
Vamos!
Vamos!
Vamos!
Dez remadas aceleradas!
Nos quinhentos metros
já estou cansado
antebraço inchado
na minha frente
Samuel aumenta o ritmo
com elegância
acompanho desesperado
na água marinha
o caixote que Alexandre desloca
me assusta
diabo, que cara forte!
da proa o iodl tirolês?
o louro Hans em transe
equilibra o barco com maestria
mil metros
metade do percurso
Vamos!
Vamos!
Vamos!
Dez remadas fortes
a cada arrancada o patrão sacode
o casco tem alma própria
voa
arrisco uma olhada
todos emparelhados
mil e quinhentos metros
estou exausto
esprit de corps me segura
mergulho o remo n'água
pernas não param
braços puxam
o casco avança
Vamos!
Vamos!
Vamos!
Samuel acelera,
ouço gemidos
grunhidos
o carrinho nos trilhos
zune
a voz do patrão
chicote
remadores desesperados
animais de alguma espécie
desconhecida
sonâmbulos continuam,
devoram o cansaço...
Arvora!
A Midosi é nossa!
espero sentir insinuações
de imortalidade
espero os calafrios terminarem
coração acalmar
pulmão desafogar
remos em repouso
deslizam no espelho d'água
o murmúrio da marola no casco
canção de ninar
olho os companheiros,
amizade perpetuada
sacramentada
entre o céu e o mar
A borda do mar em Botafogo
não é mais a mesma
o paredão de pedra trabalhado
desapareceu
a rampa foi aterrada
o Mourisco se foi
só resta o nome
Manequinho sumiu
foi mijar em outras plagas
agora
regata só na Lagoa
Não é mais o mesmo domingo de manhã
na enseada de Botafogo.
William vigia!