fujam
Noite,
por que não silencia?
cães, carros, loucos, uivos, berros
desespero ímpar,
Noite,
me leva ao país da eterna adolescência
traga mensagens dos que me amam
quero espaço reservado na Nova Ordem
que apareçam os salvadores da alma
preciso de auxílio para a Travessia
serei bem sucedido?
Chuva acoita janelas
vento arranca telhas
geladeira estremece, vibra
a Travessia será silenciosa?
Êxtase, encantamento
vamos sorrir! conseguem?
Agarrem a mão de suas amadas
e fujam
Noite,
estou triste, tão triste!
heroína
Ao me rever serei um homem diferente
vestido com roupagem da nova ordem,
pele lisa, sedosa sem pêlos embranquecidos
no peito quase feminino, aroma de laranja,
olhos arredondados cerejas maduras
e em silêncio cochicharei no seu ouvido
sonetos do bardo elisabetano,
lua e estrelas e heróis renascentistas
colocarei na sua estante,
no quarto de nossas núpcias
murmúrios, suspiros e gemidos,
voltarão sempre trazidos pela brisa do mar,
na nova roupagem farei coro à vitória da paixão,
que se dane a cautela, afinal qual é o crime de
sentir desejo, prazer e orgasmo por amor,
Deus não trovejou, nem eu chorei, aplaudi de pé,
dormi tranqüilo, espantei a dor, flutuei acima das nuvens,
tem muito espaço nesse Mundo para Romeus e Julietas,
a mesa está posta com caviar e lagosta, não estou saciado,
aguardo a sobremesa com o seu sabor,
não falei ainda belas palavras,
talvez estejam num livro na estante com frases de dor
ou num dicionário da alegria,
ou numa enciclopédia dos sonhos,
ou nas cartas de Bernard Shaw,
como a lenda da criança que procura carinho,
teu amor fez renascer a primavera florida,
a manhã ensolarada depois da noite chuvosa,
amor abriu caminho nas minhas entranhas
como enchente das águas de março,
escrevo um hino ao Deus da minha infância,
aconteceu numa tarde com gaivotas,
com aplausos no último gemido,
seu corpo com o sinal verde
"vem o caminho está livre",
ícones Bizantinos, recordação antiga,
reacenderam pureza e carinho,
o nome dos anjos caídos por mim seduzidos
se apagaram para sempre com seu beijo,
"nos seus braços morri"
como num poema de Goethe,
"grama renasce" também do Goethe,
sou um homem à beira do fim
o que em mim parece vitalidade juvenil
é apenas loucura e não sou democracia
não divido meu pão de cada dia, nem o amor,
o que somos se não a própria vida
e quando deito meu esqueleto adoça,
você e eu respiramos o mesmo ar,
não beijei o chão por onde passou,
te beijo, te seguro, te aperto,
com espinhos, areia e pedras,
com inverno e primavera,
até o beijo definitivo.
seja
Seja caridoso com ela,
caminhe com dedos macios
dos mamilos ao púbis,
beije os lábios protegidos
pelas alvas coxas.
Seja caridoso consigo,
não permita o desespero
que castiga o corpo que preza.
Evite arredores estranhos,
rostos raivosos, sorrisos terror,
latidos dos cães, coaxar dos sapos
hino à morte, vômito no ar.
Seja caridoso com o lugar onde mora,
livros empoeirados, fotos desbotadas,
flores artificiais, lembranças apagadas.
Seja caridoso com seu vizinho,
que no sofá gasto verte lágrimas
assiste à novela das oito
e depois do última torcida do botão
desaparece solitário na cama vazia.
Seja caridoso com os pais envelhecidos
olhando sem prazer pela janela
os carros que desaparecem na esquina.
Seja caridoso com o político
chorando nos plenários de Brasília,
embevecido, arrogante, poderoso,
apertando o botão do painel do faz de conta.
Seja caridoso com o fanático religioso
que não cessa o lamento no Muro relíquia
e promete com júbilo o Apocalipse.
Seja caridoso com os heróis
sem rosto, sem nome,
ouça suas súplicas no inferno do Universo.
Seja caridoso com a humanidade
que treme e se apavora na virada do século,
a espera de comando cego, fim e Aleluia.
Não quero solidão, preciso de amor
quero orgia da carne, orgia da alma,
orgia de coxas e vaginas,
quero fazer amor no buraco mais negro,
que se danem as almas sem corpo
uivando nas calçadas cheirando a urina,
que as guitarras dos roqueiros
acordem minha alma desolada,
façam coro aos salmos dos antepassados.
Que os portões do Éden se abram,
escapo, não para sempre;
Sua presença clama minha morte.
Seja caridoso comigo.
ruas
Minha namorada se esconde
não sei onde,
tantas lembranças
apenas meus dois olhos
para contar tristeza,
tantos relógios
tão pouco tempo juntos,
tantas estradas
nenhum caminho que
me leve perto dela,
tantos sonhos
se decifrados mudariam
a história dos amores
e eu um cão vadio
percorro as ruas
de minha vida.
era uma vez
Meus doze anos, calças curtas,
pele luminosa, seda do oriente,
olhos castanhos, cerejas maduras,
perfume de macieira, inocência.
Como a mãe em vigília,
dias escorrem em silêncio,
a grama por onde ando
esconde meus passos,
estrelas longe do meu alcance,
visões, idéias e pensamentos
em minha mente flutuam,
mão do destino guia.
Lendas de reis e princesas,
Excalibur e a Dama do Lago,
abrem as portas da casa escura,
flautas e oboés, Puck dança,
flores surgem da terra,
visão floresce,
ela deitada ao meu lado, encanto
Meu rosto vincado,
mapa do meu passado,
vida de longo caminho,
já fui criança,
mãe, me abraça.
quando
Quando uma criança morre
o anjo de Deus desce do céu
estende suas asas brancas
e com a criança sobrevoa
campos garoados onde brincou,
onde deu risadas e borboletas acariciou,
onde colheu flores e chamou:
mãe, mãe, olha, são para você!
e a criança sorri nos braços do anjo,
e Deus aplaude.
Quando um velho morre
o anjo de Deus desce do céu
estende suas asas brancas
e o velho reza os Cânticos
ainda a procura de amor,
e do Gênesis seus sonhos do passado,
dos Eclesiastes o desespero,
o anjo o segura impaciente,
o velho grita: espera! espera!
e Deus chora.
(Poemas do Livro Confissões, 2001)