umbigo
Lembro-me de uma mulher,
parada em frente à portinhola da pensão,
puxou-me pela manga do paletó
"faço um programa baratinho!"
Fazia um calor sufocante, úmido,
Rio de Janeiro no verão, hora do almoço,
programa nem de graça,
olhei-a de novo, tanto desespero no rosto,
"por favor, estou com fome".
Peguei-a pelo braço, subimos a escada,
na caixa paguei sua dívida,
deixei dinheiro para mais três refeições,
parti sem esperar agradecimentos,
desci e me perdi na multidão.
Havia tempo que não me chegava tão nítida,
uma recordação de dor e fome,
esse clarão, assim de novo,
significa algo? seria um consolo?
certas lembranças nos deixam com esta solidão
dentro da noite, num útero escuro um feto podre.
A mão da mulher na manga do paletó
deve ter-me feito um mal enorme
ou um grande bem,
mas agora olho para o meu umbigo
como quem tem direito de o olhar
e não ver uma pústula mal curada.
Quanto tempo durará isto?
mantra
Não pense nele, não olhe a lua,
nem ouça o gorjeio do sabiá,
não suspire num jardim florido,
não acredite na magia do olhar,
na imortalidade das promessas,
a primavera não é eterna
Eros não é anjo,
Asphodel abre as pétalas em Hades,
assuma a posição do lótus e medite,
Karma, causa e efeito, ilusão e desejo,
nada tem a ver com isso,
Burroughs atirou na maçã, acertou a mulher,
chorou ao ser absolvido,
as esposas de Fábio Júnior são recicláveis,
Homer o cão de Ferlinghetti
com penis cativus em São Francisco
exemplo a ser seguido,
a poeta Mira Bai escreveu faz séculos
a la la, ho, a la la ho,
amor puro é comédia.
baile
Bolero, tango, Lupicínio dor-de-cotovelo,
ouço como se fosse num cabaré da Lapa,
evoluo bailarino na pista da lembrança,
abraço a cintura dela não mais delgada,
que me acompanha leve, sonho relembrado,
seu rosto um contorno menos oval,
o perfume é barato, o vestido desbotado,
os sapatos gastos, os cabelos sem cor,
meu terno cintado, risca de giz,
perdeu a elegância, o cravo na lapela chora,
dois pra cá, dois pra lá, Besame Mucho,
Frenesi, Mi Buenos Aires Querido, Vingança,
dois para cá, dois pra lá, um deslize suave,
um dobrar das pernas, um rodopio da dama,
de novo abraçados, ritmo caliente e triste,
últimas batidas de dedos no bongô.
choro final do bandoneón, nos afastamos ofegantes,
eu tropeço, ela manca, baile da terceira idade,
ouço as palmas piedosas, vejo sorrisos esmolas,
os velhos no picadeiro cumpriram seu papel de palhaços.
açougue
Não vi mentes sendo destruídas pela loucura,
eu vi a própria loucura, nua, fedorenta e risonha
num manicômio do Estado à beira do rio Paraíba,
natureza verdejante, águas pujantes, belas haras,
quadrúpedes hospedados em luxuoso ambiente
exagerado até para milionários sultanos,
emoldurando o inferno impossível de ser imaginado,
mas concebido com cínica genialidade
por demônios paridos no Inferno,
seguidores de Hipócrates e diplomados doutores
pela hipócrita sociedade, burocrática e burra,
eu vi bípedes seres se arrastando pela lama,
os vi nus, acocorado e defecando na grama,
os vi cobertos por fétidos panos, olhares vazios,
cabeças raspadas com feridas abertas,
os vi se escondendo da luz do dia
em cubículos de paredes manchadas de excrementos
de todas as tonalidades, cárcere do Marques de Sade,
suas mentes queimadas por lança-chamas medicamentosa
vomitando por bocas desdentadas fétido liquido
e obscenas palavras em monótona cadência,
os vi encostados em banheiros orelhas colados
nas paredes com azulejos gretados e encardidos
ouvindo o Terror caminhando do outro lado,
vi mulheres nuas correndo entre arbustos
que ao me verem abriam as pernas mostrando
as entranhas escuras e me chamando de filho,
a caminho do meu dever de engenheiro recém formado,
imaginei o horror dos seus sonhos,
o nunca acordar dos pesadelos,
enfermeiros sonâmbulos ao meu lado em jalecos sujos
resmungavam: a gente se acostuma, a verba é pouca,
nada pode ser feito, só enfiar pelas goelas pílulas coloridas,
um velho seguia nossos passos, emitia soluços ininterruptos
tentando rir ao mesmo tempo, de repente iniciou
um choro convulsivo rolando nos pedriscos,
apanhei meus cigarros do bolso,
um enfermeiro gritou: não faça isso!
meu maço foi arrancado, minha mão arranhada,
vi alguns ajoelhados em posição de reza me olhando,
tentei recriar em minha mente a sintaxe da sanidade,
fazer um discurso caridoso e inteligente,
senti apenas tremores envergonhados,
confessei em silêncio a minha inutilidade,
peguei o caminho de volta sem cumprir minha tarefa,
saí do inferno, num último relance
vi mulheres urinando no sol,
homens se masturbando nas sombras,
deixei para trás a poesia da vida, retalhada e sanguinolenta,
como carne enganchada e enfileirada num açougue,
e por longo tempo me vi em sonhos
caminhando pelas estradas do meu belo País,
resmungando palavras sem nexo.
O
Profundamente sensibilizado
ante o comportamento das espécies
geradas sem óvulo e espermatozóide,
e como a Verdade paira sobre todas as verdades,
assim deixo escrito com infantil raiva minha perplexidade
para que sobre ela se debrucem poetas e adivinhos
e a todos quantos se interessam com o seu próprio interesse.
Este meu lírico desabafo tão rico em significar nada
me aproxima dos abismos do céu e alturas do mar.
Me vejo um Colombo que descobriu o índios
que teimam continuar vivos,
me vejo um Marco Pólo que descobriu que
a lua da China era a mesma de Veneza,
me vejo um Amundsen que penou chegar ao Pólo Sul
para descobrir que lá fazia um frio danado,
me vejo o Astronauta que pisou na Lua
e descobriu que a sua mijada em nada difere
das mijadas terrestres,
e por fim só acredito numa verdade cientificamente provada,
que o círculo é a figura geométrica perfeita
e por isso o cu é redondo.
preto & branco
No sofá, no meu canto predileto,
Cabeça encostada no respaldo gasto,
À minha frente, na parede do lado esquerdo
Um entalhe de madeira comprado na feira hippie
Assustador, escuro, cabeça disforme, serpentes,
Me lembrou da minha alma perturbada,
Acima dele em papier maché, enorme cabeça de palhaço,
Nariz vermelho, olhos tristes, colarinho folgado,
No brechó empoeirado, paguei uma nota preta,
Sou eu moldado com fiel semelhança,
Passo olhar indolente pela estante,
Livros desordenados, misturados, meus sentimentos,
CDs empoeirados, não os ouço faz tempo,
Como não mais ouço meus lamentos desconexos,
Adiante fotos de todas as eras, coloridas,
Misturadas em estética desordem atrás de sólido vidro,
Meu deleite quando visitas exclamam: que família bonita!
Logo em seguida numa moldura simples e barata,
Oito jovens, olhares triunfantes, com mãos nos remos
Vencedores da prova Oswaldo Aranha, na raia da Lagoa,
O ano de 1942, ou talvez um ano depois, não importa,
Agora, no limiar de 2002, essa foto quase um epitáfio,
A morte passou por alguns, aos outros espreita,
Inocência, vitalidade, coragem, afogados na Lagoa?
Pela janela a brisa noturna me estremece
O dia apagou-se, a noite se estende inclemente,
Na escuridão da sala, halo cor turquesa,
Juro, coroa oito cabeças,
Oh, Deus, Jeová, Maomé
E eles são tão sadios
E eles são tão belos
E eu fui um deles,
O segredo da eternidade
É uma foto em preto & branco?
Aceno, foi bom revê-los, amados amigos,
Mandarei minhas lágrimas do Hades
Prometo, num barco a remo.
Pacis Vobiscum!
(Poemas do Livro Preto & Branco, 2002)