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>> lembranças

 

 

 

nada deve ser escondido

 

sou guia de labirinto,

venha, faça-me uma visita,

mostro-lhe as meninas

do gueto cinco estrelas,

mostro-lhe poços de miséria

que ardem como chamas do Olimpo,

mostro-lhe gente estranha

perseguida por pesadelos,

gente, répteis em transmutação,

mastigando morcegos,

mostro-lhe deuses envergonhados,

seres da noite que vivem de dia,

amantes descartados que choram na esquina,

mostro-lhe mulheres-chicote

com caninos sangrentos,

a puta Sapho de sorriso desdentado,

mostro-lhe o boteco pé sujo

fedendo a mijo e cachaça,

camponeses insanos arando na praça,

pernas cabeludas sangrando nas varizes,

mostro-lhe andróginos se masturbando,

almas penhoradas jamais resgatadas,

pregadores e mendigos de mau hálito,

mostro-lhe Deus imaginário

num telão de mil polegadas,

punho em riste, trovejando:

"pensam que estou brincando?"

 

 

 

eu vi. eu vi, de novo

 

                     ...e o que viu?

vi guerras, estive na Coréia, no Vietnã, na Chechênia, nas praias da Normandia,

senti o cheiro dos excrementos vindo das tripas dos soldados com o ventre aberto,

vi prisões na China, no Brasil, pisei na urina nos seus corredores malcheirosos,

vi a Somália faminta, homens, mulheres, crianças só pele e osso apodrecendo ao sol,

vi corpos decapitados nas planícies africanas, nas savanas incendiadas,

vi párias se banhando nas águas do Ganges pestilento, enquanto

marajás fumavam charutos e bois e vacas santificadas defecavam,

vi tiros e pedradas na faixa de Gaza e fingidas conversas de paz que jamais será,

vi bombas em Dublin e nos Países Bascos, em Londres, em Tel Aviv, em toda parte,

vi dois milhões de mortos na Indochina, meio milhão de comunistas trucidados na Indonésia, quinze milhões enterrados na Sibéria,

vi a eficiência do Zyrkon-B, dez mil mortos em cada 24 horas,

vi os massacres em Wounde Knee, My-Lai, Ludice, Attica e Carandiru,

vi camponeses, pergaminhos esturricados na seca perene, e mortos em Canudos,

vi mãos decepadas nos reinados das Mil e Umas Noites, mulheres escondendo o rosto como no tempo de Saladim, sem esperança de amor e carinho e luz do sol,

vi corpos boiando no maior rio da Terra, ganância e descaso imperando,

vi homens, mulheres, crianças mutiladas por minas terrestres em Angola,

vi o assassinato de Sacco&Vanzetti, os Rosenbergs eletrocutados, Herzog enforcado,

vi balas encravadas em Kennedy, Luther King e Malcom X, John Lennon apagado,

vi disenteria, centenas de sem-tetos, corações triturados, almas ocas,

vi o desespero de multidões querendo alcançar as estrelas...

                                                 ...e não há esperança?

se houver um julgamento final, a humanidade inteira será condenada?

              e as crianças, as almas puras serão poupadas?

 

sonhei uma vez, a cidade estava inundada, todos fugiam, na minha frente um homem

                                  estendia a mão trêmula, pedia ajuda, socorro.

                                                  : era Deus?

 

 

 

boa viagem

 

rodoviária, cloaca imunda da urbe mausoléu,

seus cadáveres em movimento de desespero,

luzes enlutadas de poeira e teias aracnídeas,

a viagem, pesadelo com odores infectos,

fedores urinados e pútridos bafos intestinais,

sovacos suados, chulé azedo, odores íntimos,

uma eternidade desagradável de horas penadas,

óculos escuros escondem olhares de desgosto,

lenços encatarrados abanam um adeus

aos zumbis mumificados de esperanças falecidas,

num canto escuro, paraibano cansado da vida,

avental imundo, serve pastel, "Jesus chamando",

malas repletas de trágicas memórias jazem esquecidas,

embrulhos amarrados, barbantes frouxos dormitam,

placas enferrujadas, vidros quebrados, mobiliário urbano,

travestis com navalhas junto ao escrotal saco, na espreita,

nojo penado, o estômago arde, terrível pesadelo,

bye, bye, vou pagar penitência no ônibus interestadual,

uma gorda senta-se ao meu lado, seio disforme, apoiado no meu braço,

uma barata antenada e apressada caminha no corredor,

 

boa viagem!

 

 

 

sem as sete saias

 

minhas mãos experientes

despem-na das sete saias,

caminham pelo seu regaço,

sobem, descem sem descanso,

na mão esquerda, dedos unidos

abraçam febris um ombro dócil,

regozijam-se com o tremor da carne,

na mão direita, diligentes dedos,

do polegar emana energia,

o seguinte é primo violino spalla,

o esguio, elegante terceiro dedo

dança um tango a media luz,

o quarto dedo é voyeur inveterado,

o mínimo, delgado quinto dedo

é misógino, nada o abala,

no espasmo final meus dez dedos

afastam-se com a cerimônia

de um mordomo de lorde,

e em seguida, com movimentos refinados,

recolocam saia por saia,

com um retoque final

acariciam o rosto da madame.

 

 

 

mon amour

 

ela aparece ao entardecer,

quando o vento norte corre no ar

tão quente que derrete as conchas no mar,

me ama com a fúria de arco-íris tropical,

meus nervos retesados como cordas de violino

tocam a Sinfonia Macabra e o quarto se esvai

em silêncio selvagem mergulhado em

vermelho sangue e preto Somália,

ela me esfola, me deixa em carne viva,

crava as iniciais nas minhas costas ardidas,

me seduz como gata no cio,

me retalha com um sabre naginata kachigumi,

relincha como égua soberana dos cavalos

e eu, príncipe das mulas pardas,

insemino nela gotas de caviar,

por ela me injeto toda a heroína da Conchinchina,

assisto extasiado sua dança de fada endiabrada

pelas praias da Ilha Grande,

às vezes ela parece tão estranha,

mas é a única garota que conheço

que cavalga em pêlo e sem esporas

e recita o poema Hiroshima Meu Amor

 

"Berr...bum, bumbum, bum...
Ssi...bum, papapa bum, bumm
Zazzau...Dum, bum, bumbumbum
Prä, prä, prä... râ, äh-äh, aa...
Haho!..."

 

com alma eqüina.

 

 

 

ridi pagliacio

 

se me pedem conselho, dou de graça,

dizem que o quê não é cobrado não presta,

pode ser, amor pago às vezes supera o casto,

mesmo assim, quem quiser me ouvir,

coloco na mesa minhas cartas surradas.

 

a vida só faz perguntas, não dá respostas,

não procurem entender, é perda de tempo,

melhor ficar de quatro, gramar e ficar calado,

a porrada vem, dói pacas, mas com o passar do tempo

tudo acaba em deboche, se levar a sério, ferrado.

 

chiar não adianta, agarre o que puder,

dinheiro, mulher, carros, jóias e poder,

a justaencana ladrão de pastel,

Ali Babá está sempre numa boa,

é isso que devem ser sem se arrepender.

 

a caminhada é longa, a subida inclemente,

andei por essa rodovia por mais tempo que devia,

sim, podem apostar, é longa e cheia de curvas,

deixei pra trás mais do que queria.

 

abandonei camas feitas de pétalas de flores

entrelaçado por rosas trepadeiras,

cada uma se dizia a mais amada,

devem se acostumar com a mentira.

 

e por favor, não mencionem o dia de amanhã,

não devem se preocupar com fato consumado,

o mundo está cheio de conversa fiada

e com licença da má palavra, não há cu que agüente.

 

na poeira, lama e grama queimada, ajoelhei-me

e rezei em desespero, por favor,

alguém me diga, por que a vida é rio safado

que nos afoga e dá risadas,

 

assim, um derradeiro conselho,

arrumem alguém de qualquer sexo,

falem sem rodeios, meu bem,

o amor eterno nos une, não há quem nos separe

porque o que sinto por você

só muito dinheiro pode me convencer do contrário,

me engane quando quiser, que eu gosto, podes crer.

 

morri mil vezes por dia, me lamentei, ainda choro,

caparam minha macheza, calaram meu uivo,

demoliram minha crença no bicho homem,

me enrabaram sem vaselina, riram da minha cara,

eu sorri amarelo, me deixaram prostrado,

 

a caminhada é longa, a subida inclemente,

andei por essa rodovia por mais tempo que devia,

sim, podem apostar, é longa e cheia de curvas,

deixei para trás mais do que queria.

 

 

 

lola

 

vou até a zona perto do aeroporto

beber um copo com minha Lola,

ela me entrega o corpo mulato,

encantada com meu papo.

 

a vida é dura, mas que diabo,

as estrelas ainda brilham lá em cima,

a casa dela é meu Taj Mahal,

não tem ninguém pra nos importunar.

 

vou correndo, vou cheio de desejo,

vou deitar com a mulher que me ama,

vou à procura de carinho,

estou ilhado, longe do Rio, estou a perigo.

 

toda vez que me levanto e me vejo sozinho,

nada ao redor que apague a saudade do mar,

pego o caminho da zona perto do aeroporto

e me deito com Lola se ela não estiver com outro.

 

o percurso é longo e tenebroso,

mas não me incomodo, nem choro,

pior é ficar esquecido, que nem cachorro sem dono,

se as nuvens não caírem do céu e a estrada for amiga,

garanto encontrar Lola deitada sem nada em cima.

 

preciso estar prevenido, tem cara metido a engraçado,

finjo que não ouço, mas falo manso:

— camarada, se me tocar, te encho de porrada,

ele afina e eu fico na minha.

 

bem, nem sempre acontece o que a gente espera,

às vezes o caldo entorna e vira banzé de faroeste,

Lola se diverte, dá risadas cristalinas, depois fala:

— acaba logo com isso, senão meu tesão avoa,

se apresse que tem mais dez na fila, rindo à toa.

 

 

 

saudade

 

acordei cansado, cabeça zoando, juntas anquilosadas,

perturbado por masturbatório pensamento

desejando o retorno da amada do passado,

seguir o lema de quem tem uma não tem nenhuma,

é furada, é justo ao contrário,

exagerei na dose, quase morro de overdose,

pouco importa agora, que apareça uma delas,

que passeie comigo, que me fale ao ouvido,

que me explique a razão da saudade repentina,

que me console com crédulas mentiras,

que seja caridosa e sussurre — você foi o homem da minha vida,

me engana que hoje eu gosto, mas quem avisa amigo é,

saiba que não sou mais o mesmo,

sou carta fora do baralho, pergaminho do Mar Morto,

desejos insaciáveis saciados com meu sangue glicosado,

a pressão sanguínea despressurizou meu falo,

tão rés do chão, que os ácaros têm seu ninho nas minhas narinas,

honey estou sem money, baby, não tem nem maybe,

foi tudo pro vinagre, o Viagra tempera minha salada,

tá tudo invertido, a Banda de Ipanema da musa Leila

agora é trenzinho de veado, o último da fila com dedo no rabo,

darling, esqueça meu lamento, é só questão de momento,

qualquer dia tropeço na bengala e numa esquina de Ipanema

aterrisso nos seios de silicone da Deborah que de Secco só tem o nome.

 

 

 

ao vivo

 

nessa manhã, o sol entrando pela janela

tento me lembrar se o cabelo dela era preto ou vermelho,

eu a conheci na porta do edifício, falou meu nome,

disse que estava à minha espera, eu não sabia quem era,

e a coisa rolou intensa entre tapas e beijos por algum tempo,

dividimos cama e mesa o verão inteiro,

nos despedimos numa tarde depois da sessão de cinema,

eu peguei o Circular pra Ipanema, ela o 155 para a Vila da Penha.

 

era casada, foi o que ela me dissera,

não me incomodei nem liguei pro fato de ela, cada semana,

inventar outra história, o pai o enxotara de casa,

a mãe era louca, a irmã prostituta, o irmão veado,

tanto faz como fez, eu tinha meu emprego e algum dinheiro,

mas não esqueci suas palavras de despedida:

— a gente se encontra por aí, qualquer dia,

e agora, tentando me lembrar da cor do cabelo dela,

senti saudade dos tapas e beijos, do seu cheiro de fêmea,

 

oh, destino cruel, perdi o emprego e sem dinheiro,

o passado, cortina pesada na minha vida de solteiro,

muitas mulheres passaram por ela,

mas nunca me esqueci do seu cabelo preto ou vermelho,

fui à sua procura pelas ruas pecaminosas de Copacabana,

entrei e saí pelos antros safados da Prado Júnior sacana,

num deles pedi uma cerveja gelada e petiscos salgados,

no palco mal-iluminado, ao som de ritmo quebrado,

uma mulher nua rebolava, meus pentelhos se ouriçaram,

era ela, o refletor iluminando a bunda ondulante,

e mais tarde quando a galera foi minguando

percebi-a de pé ao me lado e ela me falou:

— não te conheci em algum lugar distante?

respondi algo murmurando com os lábios cerrados,

ela me olhou, examinou as rugas na minha cara mal barbeada,

confesso que me senti um pouco embaraçado

quando ela se abaixou e beijou meus olhos embaçados.

 

no meu quarto ela acendeu um baseado e me ofereceu,

— pensei que nunca mais ia me procurar — ela falou,

em seguida apanhou na estante um livro de poemas

do Beat Allen e me entregou

e juro que cada palavra ali escrita era de paixão e dor

e queimava como brasa,

como se escrita pela minha alma apaixonada. 

 

vivemos por algum tempo juntos

no meu conjunto quarto-e-sala,

havia música de amor durante a noite

revolução de paixões durante o dia,

mas logo a coisa azedou, a grana era pouca,

vendi tudo o que tinha, estante, livros,

Ginsberg, Kerouac, Corso e companhia,

ela ficou irrequieta, saía escondida, ia fazer a vida,

depois de algum tempo não mais voltou,

algo dentro de mim se apagou,

secou como inseto em teia de aranha,

continuei a viver por algum tempo como melhor podia,

pássaro engaiolado em triste memória.

 

estou de volta, à procura dela pelos antros safados,

preciso encontrá-la de qualquer jeito,

todos meus amigos, conhecidos, são fantasmas agora,

poetas, cientistas, escritores, mulheres afamadas,

desconheço como a vida deles escorre todos os dias,

mas eu ainda caminho pelas ruas de Copacabana,

entro por todas as portinholas com letreiros de gás néon

que anunciam SEX SHOW AO VIVO,

tenho certeza de que ela ainda me ama,

apenas temos pontos de vista diferentes,

eu escrevo poemas para os desiludidos,

ela faz sexo para os fodidos.

 

 

 

emoções

 

tantas emoções eu vivi, muitos momentos lindos,
mas, helás! ne me quitte pas! ne me quitte pas!
esbravejei demais e ouvi demais com gélido desdém,
por onde caminhar sem emoções no meu calcanhar,
o que me espera?
e se o desespero me alcançar
vou me concentrar nos cinco sentidos
e no que eles percebem ou imaginam,
como o sinal luminoso de três cores,
ou na mulher despida ao meu lado dormindo,
enquanto tento eliminar a nostalgia,
e todos os pensamentos poéticos
como gatos, arroz, chuva, cartas de baralho,
samambaias, antenas de celulares,
e os cortiços onde ferrei tantas negras gamadas
e onde promovi surubas multissexuais,
indago às emoções sepultadas num armazém abandonado
onde, quem sabe, tem outro homem que sente o que sinto,
que esteja fora de contexto, um pronome sem endereço,
e como eu, veste bermudões jamaicanos,
camisa florida de surfista havaiano,
nos pés, chinelos da Indonésia,
no pescoço, colar de dentes de tubarão,
na cabeça, chapéu panamá lambuzado,
expirando vapores de fel de cínicos bocejos ,
deitado ao relento sem portas e telhado,
e sem nuvens para se esconder,
se chorei em vida, devo sorrir para a morte?
repito sem cessar o mantra impossível
vida, vida, ne me quitte pas! ne me quitte pas!

 

 

 

 

(Poemas do Livro Eu Vi, 2003)