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Sentiu o cheiro, o barulho vindo das entranhas, sentiu vergonha por ela estar lá, sentiu o arrepio dos últimos espasmos, limpou com a mão a baba e colocou a cabeça debaixo do chuveiro.

De volta à sala, viu pela janela, noite ainda, Rita estendida no chão, os braços entre as pernas, os seios numa posição estranha, ela parecia adormecida, ele precisou de ar. Afastou mais as cortinas, sentiu a brisa e respirou devagar, fundo, como é maravilhosa a noite silenciosa, sentiu o cheiro de maresia, recuperou-se do cansaço, mas a tristeza o agarrou, tentou limpar o pensamento, que diabos farei com Rita, não será fácil, a noite é muito longa, estranha, de dia darei um jeito, fechou a cortina e olhou a mulher.

Merda, ela dorme mesmo, tomou-a nos braços, Deus, ela é mais pesada do que parece, levou-a até o quarto e caiu junto com ela sobre a cama. Rita gemeu, mas não acordou. Sentou-se na beirada e acendeu um cigarro, jogou a fumaça na direção da mulher. Viu através dos anéis o nascedouro do púbis entre as pernas cerradas e terminou a inspeção ao apagar o cigarro. Alfredo segurou o ombro dela, colocou-a na horizontal, afastou-lhe as pernas, o que deu algum trabalho, ela as fechava mesmo dormindo, mas ele insistiu e quando ficou em posição, o sexo à mostra, ele olhou maravilhado, nunca sentira tanta atração e repulsa ao mesmo tempo.

Deitou-se sobre Rita, quase rezando para que ela não acordasse, queria o ato solidário, um prazer só dele, entrou com vagar, quando sentiu a penetração total respirou fundo, apoiado sobre os braços, as pernas esticadas para manter o corpo afastado do dela, ela mexeu-se, ele parou, esperou três ou quatro segundos, ela não abriu os olhos, ele recomeçou. Olhou para baixo, queria ver, começou a suar, seus braços cansaram, aguardou o prazer chegar, mas não veio, espiou seu sexo indo e vindo, os seios da mulher, a boca, o prazer fugiu, pensou em todas as sacanagens do passado e nas que ainda não fizera, em vão, fechou os olhos e desistiu, deixou-se cair para o lado, em posição fetal.

Ficou assim durante algum tempo, sentiu o lençol molhado de suor debaixo dele.

Olhou para o teto, procurou por alguma mancha na brancura, nunca sentira tamanha solidão, tão intensa que se assustou. Nunca acontecera antes, não desse jeito. Ele tinha quarenta e cinco anos, nunca experimentara o amor. Adormeceu, o corpo teso, sonhou com Dora.

 

 

***

 

 

— O que foi que o velho falou?

— É pra apagar os dois — respondeu Manino.

— E a grana?

— Se pegar, melhor. — O louro colocou o chiclete na boca e começou a mastigar. — Acho difícil. Ele deve ter colocado tudo no cofre do hotel.

— Quem é a dona? — perguntou Miltão.

— Era a do defunto, o Teixeira, uma putona.

Silenciaram.

— Porra, parece que tão em lua-de-mel — falou o gordo. — Ainda não saíram do quarto. — Ele olhou em direção à recepção. — O cara tá nos manjando. Daqui a pouco vai mandar o segurança pra cima da gente.

— Vamos cair fora. De noite a gente volta e espera no carro — falou Manino.

— E se eles pintam antes?

— Não tem importância. Tô com palpite que vão dar uma de turista.

 

 

(Trecho do livro Comissário Alfredo, 1995)