— Ele tá morto, não tá? — escutou.
— Sim!
Clementina começou a chorar. Alfredo aguardou, examinou a mulher, morena clara, trinta anos, rosto largo, lábios cheios, seios enormes dentro do robe colorido.
— Ele deixou isso pra você.
Um envelope com cinco milhas.
A mulher levantou o rosto, enxugou as lágrimas, colocou o dinheiro debaixo do travesseiro, o perfume agridoce no quarto quase tonteou Alfredo.
— Ele me trouxe de Ribeira de Pombal, Bahia, quase Sergipe. Há quinze anos. A estória não é bonita.
— Moça, eu conheço todas. Nunca são bonitas.
— Mas tem o amor, né? Esse sempre é bonito.
Alfredo calou-se, imaginou-a com quinze anos, amor, pode ser.
Clementina começou a falar, as recordações ainda vivas na memória, Alfredo sentou-se numa beirada da cama, encheu-se de paciência... Ele era bonzinho, tinha vinte anos quando chegamos, arrumou trabalho, servente de prédio, eu morava com uns parentes afastados, em Imbariê. Nos encontrávamos nos dias de folga dele... cansou de ganhar pouco, foi trabalhar como aranha, sabe, coisa de bicheiro, apontar jogo. O ponto foi assaltado, ele esfaqueou um, virou fugitivo, eu... vim pra cá trazida por uma conterrânea, foi mais fácil que pensei, só fechar os olhos e pensar nele. Não nos vimos mais, aos poucos esqueci ele. Aí, virou castigo, bêbados, fedorentos, a gente acaba acostumando, os que vêm aqui não querem saber se a mulher é bonita, querem matar as saudades, precisam de carinho, esquecer o cansaço, o patrão, os sonhos, querem apenas o nosso corpo quente. Dois meses atrás ele apareceu sem cabelo, me deu um dó, só vendo... Tô doente, nega, falou, muito doente, a merda dessa vida me adoeceu, mas antes reparo o mal que te fiz... Eu disse pra ele que não importava mais, que tava bem aqui, foi-se sem mesmo deitar comigo.
— Ele falou num tal de Geraldo... Machado?
— Conheço ele. Foi colega dele num edifício. Saíam sempre juntos. Depois se separaram. Geraldo tirou carteira de motorista, Careca não podia. Era analfabeto, coitadinho.
— Naquele dia que esteve aqui comigo, falou nele?
— Não, senhor, mas parece que tavam sempre em contato. Mas isso faz muito tempo.
— Se lembra como ele era?
Alfredo não insistiu, não adiantava, as pessoas sempre escondiam alguma coisa, ele tinha certeza que a mulher não dissera tudo, talvez ela fora amante do tal Geraldo, talvez ainda mantivesse contato, talvez o cara fosse casado com uma amiga dela, talvez... Bem ele ainda tinha que investigar o Luciano, a morena da tatuagem.
Na parede junto à cama ele viu o papel preso com fita durex. Aproximou-se, leu:
Ó jovens putas das tardes,
que à noite despetalais,
as vossas pétalas tóxicas,
pobre de vós, pensas, murchas,
orquídeas do despudor,
não sois Lélias tenebrosas,
nem sois Wanda tricolor.
Sois pobres, desmilinguidas,
dálias cortadas ao pé.
— Lindo, né? Foi um freguês que trouxe. Ele é professor, coitadinho, ganha tão pouco que vem aqui pra... sabe como é! Me disse que é de um tal de Vinicius...
Ele levantou-se... Moço, peço um favor... Pode pedir, falou Alfredo.
Clementina deitou-se, afastou o robe, os seios enormes apareceram, a pele cor-de-oliva, as carnes macias, o ventre redondo, as coxas roliças, as pernas abertas.
— Vem, moço, quero amar você me lembrando dele.
Alfredo atendeu, não soube dizer se era um ato de caridade, mas o prazer foi grande.
(Trecho do livro Os Anjos Também Morrem, 1997)