> Prosa
> Comissário Alfredo
> Os Anjos Também Morrem
> Encontro em Salvador
> Minha Doce Empreiteira
> Tudo por Nada
> Memória Tumultuada
> Aberlardo e Outros Contos
> Eu, Investigador
> Crime Feito em Casa     (antologia)
> O Diabo Vestia Seda



>
Principal
>
Biografia
>
Poesia
>
Lembranças
>
Links
>
Créditos
>
Yehuda - Blog
>
Contato

 

 

 

 

Às vezes eu acordava sem noção de onde me encontrava. Então ficava deitado e fazia planos de como seria interessante levar alguma mulher para almoçar, ou se eu me sentaria em frente ao computador e tentaria escrever. De nada adiantava dizer a mim mesmo que eu não estava em casa, que as lembranças do passado sempre me perseguiam, que inúmeras vezes eu passara por essa amnésia, nem sempre num hotel de cinco estrelas, mas num cubículo estreito e fedorento, num subúrbio de alguma cidade desconhecida, dia e noite à espera... de que? ou melhor, de quem? os olhos ardendo de tanto espiar através de um binóculo, até ele ou ela aparecer e então com arma na mão atarraxava o silencioso e ploft, ploft, ele ou ela caído e eu minutos mais tarde num táxi a caminho do aeroporto, depois num avião a caminho de... bem, tudo isso acabara fazia anos, mas esses fatos eu via como parte de um sonho, portanto, bem distante de onde eu me encontrava... e como aconteceu? cara, afaste essas teias de aranha, às vezes levava a manhã inteira para voltar ao mundo real o passado se grudava na minha mente, eu preso por um estranho mecanismo parecia querer voltar, voltar e ficar, fazer, desfazer, refazer minha vida... mas quem está marcado como eu, esfregava o antebraço como se quisesse apagar o impagável, de repente a euforia se apoderava de mim, bem, meia dúzia eu despachei pro inferno, inclusive ele... só então voltava ao presente e pulava da cama pronto pra almoçar com uma dona ou sentar em frente ao computador, droga, cara, que computador? você está em Salvador e a dona? sim ela... Solange era esperta, rememorei a nossa estada no Pelourinho, o boteco, a bebida, o cravinho, depois de meia dúzia de talagadas, a pergunta feita ao cara, conhece o sujeito do bar do Arakatu? — que sujeito? — um negro boa pinta que nem tu — todos são negros e boa pinta! — sim, sim, mas o cara tem uns dentes de marfim, coisa do outro mundo, quando ri quase cega a gente, manjou? — ah, bom! por que não falou  logo, o Elias, filho de Xangô, ele tá defendendo algum, lá na boutique da Ilê Ayê, lá do outro lado da praça — falou meu camarada! um aperto de mão, alguns passos inseguros... — Elias, meu camarada, tá lembrado de mim? — como não, coroa arrochado! — pois é, negão, uma informação, pode ser? bem, mas antes manda um boné jamaicano, quanto? vinte pila? toma trinta! — fica tirrane em tu! bem mesmo, quer outro pra tua quenga? — manda! agora negão, vamos pro que interessa, tu sabe o nome e o endereço daquela dona da encrenca daquela noite? — a lourona da descaração com o marido mais ou menos do meu tope, aquele abusado, que mandou chuva na tua cara? — sim, aquela! — amigo irmão, tu tá a fim de bafafá? tá querendo arrastar a asa pra dona? — não negão, não sou tão atirado, é coisa bodosa, que tu não carece saber — okezinho, meu branco, algum cu de boi, num quero meter a colher, bem, ela mora num lugar chique, sei porque fiz cobrança lá, o maridão é ruim de paga como quê... o negro dera o endereço, Solange tomara nota, eu me desfizera de mais uma nota de dez.

 

 

 

 

(Trecho do livro Encontro Em Salvador, 1998)