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Yehuda - Blog
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(...) Gil apanhou dois copos, encheu-os com uísque.

— Por que não larga essa droga e senta? Tu não vai me matar já e eu tô desarmado. Rufino se sentiu inferiorizado, o outro dominava a situação, passou a mão pelos cabelos, colocou a 45 em cima da mesa de cabeceira, apanhou o copo da mão estendida.

Conquistar homens ou mulheres dava na mesma, Gil sabia. Infiltrar, seduzir, dominar, fingir, movimentos só no rosto, olhos, boca, testa, em especial os olhos têm que mostrar sinceridade mesmo nas mentiras. Falou manso, falou sem parar, sua vida, seus problemas, suas inquietudes, suas esperanças, voz grave, sorriso congelado no rosto, só os olhos abrindo, fechando, ora fixos nos do outro, ora perdidos no espaço, sonhadores, lágrima escorreu do canto do olho, não deixou Rufino interromper. Levava seu copo à boca quando o outro o fazia, atento às mudanças, Gil comandou o beber, aproximou o rosto, o olhar fixo, a voz um sussurro... silêncio. Rufino nunca tivera relações homossexuais no colégio, na tropa, mas agora, excitado, a mão entre as pernas, ele podia jurar que naqueles instantes amava o Gil, esse cara é um durão, somos iguais, estava eufórico. À minha frente está alguém em que posso confiar, começou a falar, abriu o fecho da calça, enfiou a mão, minha mãe é culpada, nunca consegui foder mulher. Aquela tarde, na saída do colégio, o vento arrancou a peruca dela, não sabia que usava uma, era careca, os garotos riam, como riam aqueles putinhos. Quis matar a velha naquele instante, como era possível ela enganar tão bem, ia ao cabeleireiro duas vezes por semana, ora ruiva ora morena, pegava na minha mão e a colocava nos cabelos, veja como são sedosos dizia, merda de vento safado, como é possível acabar com o sonho de uma criança? Sou louco por mulher, mas não consigo, esse negócio de língua e dedo tentei, não achei legal. No exército todos iam à zona, eu não. Correu o boato de que eu era diferente, pedi desligamento, comecei a entrar e sair das igrejas, tocava uma, às vezes, duas por dia, me confessava toda semana, os evangelhos Marcos, Mateus, Lucas, João, li e reli dezenas de vezes, o beijo da morte, coisa sublime, crucificação, ressurreição, tudo a partir do beijo do Judas, sempre beijo quem morre pela minha mão, a primeira vez vomitei, a segunda enjoei, a terceira, moleza, depois mais cinco. O destino, acredita nele? Tem que ser ajudado, matei o cara, assim, sem mais nem menos, não me fez nada, desejo de ser Judas, saber se o beijo da morte dava prazer, um gozo, destino! Matara o desafeto de um figurão, me contratou, Gil queria encher o cara de porrada, mas estava com preguiça, sem ódio não dá. Lágrimas escorreram pelos olhos de Rufino, sei, vou fazer o serviço em ti, soluçou. Gil abanou a cabeça, entendo o quer dizer, mas não interrompeu. Esquecer, não posso, sempre aquela careca na frente, em todas as mulheres. Rufino começou a se sacudir, Gil enojou, não o escutava mais, filho da puta, porra de viado enrustido, não percebeu quando Rufino silenciou. O reflexo do luminoso do hotel entrou pela janela, olhou o relógio no pulso, dez horas, quase uma hora aqui, Rufino soluçava, a cabeça entre as mãos.

Gil levantou-se.

Rufino pulou da cadeira, parou à sua frente de braços abertos, caiu de joelhos.

— Não vá, fique, venha morar aqui, acabo com Afonso, é só você man...

Gil acertou a testa com um soco, Rufino caiu com os cotovelos apoiados no chão, tentou levantar-se, Gil o segurou pela camisa, outro soco, desta vez no lado da face. Rufino rodou feito pião, tossiu, cuspiu sangue, o rosto vermelho, arrastou-o até o sofá, a camisa rasgou na mão dele. Deu um tempo pra Rufino respirar, não deu importância pra automática. O olhar se deteve nuns papéis, panfletos, apanhou um e leu: Os poderes divinos poderão e serão seus, livre a humanidade de conspiração dos infiéis, maometanos, nova cruzada está a caminho, mande sua contribuição, caixa postal nº...

— Acredita nessa merda? — perguntou.

Rufino de pé, passou a mão pelo rosto, lambuzou-se com o sangue de tanto massagear o nariz.

— Sim senhor — fungou — lá tá escrito também que mulher e homem ressuscitam e Jesus garante aos eleitos carro e casa no céu.

Gil viu a janela aberta nas costas de Rufino — queda de dez andares — o babaca ainda cuidando do nariz.

— Acha que Jesus tem um carro também? — fungou Rufino.

As palavras ressoavam no QS, confetes em cima de um quase desfalecido, sangue coagulado grudava nos lábios do coronel.

Gil esticou-se todo, relaxou os músculos, pegou a cabeça à sua frente, bateu com força com ela na parede, beijou o rosto com força, jogou o homem pela janela, escutou o grito, imóvel, tranqüilo, dei o passo, passei de um nível de consciência para outro, agora folha flutuando tranqüila nas águas do rio, após passar pelas corredeiras, flutuava, flutuava...

Caminhou até a porta, as chaves penduradas na fechadura, girou a maçaneta, saiu, desceu pela escada, na rua uma aglomeração, os olhares na marquise. Não parou, andou até à praia, a brisa uma delícia, abriu a boca, a maresia entrou, respirou fundo, dez minutos de caminhada apressada, entrou no hotel, procurou por Leleco.

 

 

***

 

12ª DP falou: suicídio.

Perícia: tudo indica.

Procurador de justiça: bem provável.

Porteiro, cabineiros, serventes: o homem não era bom da             cabeça.

Vizinha Léa: ele tinha mania de pássaro, queria voar.

Padre: não posso revelar, mas...

Exército: comportamento não condizente, desligado.

Caso encerrado, arquivado.

Gil não se importou com os cinqüenta mil dólares entregues ao             Leleco.

 

 

 

 

(Trecho do Livro Minha Doce Empreiteira)