Café da véspera, li o jornal de ontem, o de hoje guardo pra amanhã. Peguei uma revista antiga de fisicultura, flexionei os braços, estufei o peito, olhei-me no espelho. Anabolizantes? Ainda não, só quando broxa. Larguei a revista, segurei A Peste de Camus e li dez páginas, não consegui concentração, andei inquieto pela sala, a campanhia da porta não tocava, o telefone silencioso, a televisão, uma merda. Canto blues alegres ou blues tristes, depende do meu mood, dissera Billy Holliday, hoje é dia de blues tristes, só que eu não sabia cantar. Deitei-me infeliz, muito infeliz.
Acordei mal, mal mesmo, nem olhei pros pesos. Nada de supino hoje, nada de banho, nada de barba, dois dias de café frio era demais. Joguei o que restava na garrafa pelo ralo da pia, apanhei uma guimba no cinzeiro, acendi, tossi, engoli o catarro, o telefone tocou, atendi de má vontade.
— Venha até aqui — escutei.
— Quem é e aqui onde?
— Cleo — deu o endereço do edifício na Atlântica, no Leme. Desliguei. Não vou droga nenhuma, tá muito cedo pra foder! Fui e voltei da porta duas vezes, curiosity killed the cat, cuidado, seu babaca! Abri a porta e saí, peguei o 125 e desci no Lido, atravessei a praça e segui pelo calçadão, a brisa vindo do leste e o mar calmo apagaram os maus augúrios. No final do Leme atravessei, entrei no edifício de luxo, pedi ao porteiro pra anunciar minha chegada, olhou-me atravessado, não me importei, tava acostumado.
Subi pelo elevador e desci no oitavo. Toquei a campanhia. Um camarada de uns trinta anos, moreno bronzeado, de jeans e camiseta, alto e musculoso, abriu a porta. Nos pés reparei botas, biqueiras de aço, não gostei mas assim mesmo entrei.
— Cleo?
— Andou à minha frente, abriu uma porta, deixou-me entrar, fechou-a atrás de si.
Um salão branco, tudo nele branco, teto, paredes, assoalho, sofá, poltrona, cadeiras, tapetes, cortinas, até os quadros, absolutamente tudo. Senti tremendo mal-estar.
— Entre!
No fundo do salão, o velho amarfanhado, vestido de bata branca, tava sentado atrás de mesa comprida branca. Às suas costas uma espécie de santuário, embutido na parede. No meio dele, enorme estrela de cinco pontas, iluminada por luz fria.
— Senta! — de novo a voz trêmula.
Ajeitei-me tenso na cadeira branca à sua frente.
— Cleo? Onde está?
— Virá quando acabarmos a nossa conversa.
Ao levantar-me, senti a mão pesada no meu ombro. Era o garanhão, preguiçoso. Não resisti à pressão.
— Acredita em Deus, seu Gil?
(Trecho do livro Tudo Por Nada, 2001)