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XIV

 

 

Arriscar a vida, a integridade física:
o motivo é justo? É sua obrigação?
As respostas são imprecisas, dúbias,
olhares covardes se baixam,
ela sorri, conhece o homem com quem se acasalou,
sabe que é destemido, nada teme,
coragem ele tem de sobra,
é seu macho, o último dos moicanos.

 

 

 

Nas obras de grande envergadura, a estrutura de apoio é excelente: acampamento para operários solteiros, casas para os casados, casas para os engenheiros, hospital, supermercado, igreja, clube, escritórios bem montados, hotel e casa de hóspedes. Na construção da Hidrelétrica de Salto Ozório, que eu dirigia, o modelo era esse. Cinco mil operários trabalhavam em dois turnos, tudo perfeito, tudo sob controle, tudo no prazo, nenhum problema. Às vezes minha mulher visitava-me, vindo do Rio e, regularmente, de mês em mês, vinha um diretor da sede para inspecionar.

 

Naquele dia todos estavam ali, todos jantando na casa de hóspedes. Houve um incidente durante a tarde, um operário fora morto pela milícia particular contratada pela dona da obra, a Eletrosul. Eu rezava para que não houvesse desdobramento. Ilusão, operário é rude, solidário, haveria tumulto e, consciente disso, eu me entendera com o comando da milícia, para que seus subordinados se mantivessem calmos e cautelosos. O acordo fora aceito.

 

Durante o jantar um dos encarregados surgiu esbaforido, veio comunicar um tumulto no acampamento dos solteiros, que a milícia invadira  distribuindo pancada a torto e direito. Pediu ajuda. O pepino era meu, os dois visitantes do Rio fingiram-se de mortos, minha mulher olhou-me, não disse palavra para impedir minha ação, havia perigo, que mulher extraordinária. Saí com o encarregado na caminhonete e dirigi-me à praça de guerra.

 

O ronco do motor irritava meus ouvidos, o veículo balançava com violência, minhas costas doíam, o pessoal da oficina nunca obedecia, ponham menos pressão nos pneus, eu recomendava, nada feito, em obra o que mais eu ouvia era sim senhor, ainda não descobrira se era burrice, teimosia ou indisciplina, mas isso agora pouco importava, sim senhor, sim senhor, era o que queria ouvir daqui a instantes, Deus faça-os obedecerem, rezava. Sim senhor, sim senhor, era o que eu balbuciava. A lembrança da manhã veio à minha mente, minha mulher pouco me visitava e logo hoje essa bagunça. O frio que entrava pelas frestas da casa de madeira fez-me estremecer, detestava o frio, de pé olhei para ela, fizera uma viagem de vinte horas para me encontrar, era um bocado de chão do Rio até à beira do rio Iguaçu, acariciei seus cabelos, olhando o ligeiro sorriso no seu rosto, como posso retribuir tamanho amor, como pude abandonar os meninos, a brisa e o mar, a estética urbana do meu Rio, como... Sabia que esses momentos sombrios não me largariam pelo resto do dia, não haveria maneira de livrar-me deles. A zoeira das perfuratrizes trouxe-me à realidade, vesti a calça jeans, camisa e japona, calcei as botas surradas, elas acompanhavam-me há anos, o meu capacete também, o tipo de vida que eu levava fizera-me supersticioso, uma última olhada nela, fechei a porta com cuidado, entrei no fusca, acionei o motor, as gralhas pousadas na cerca levantaram vôo e sumiram no meio dos pinheiros. O céu azul, muito azul, desprovido de cortina poluidora, machucou-me a vista, coloquei o Ray Ban, o ar puro penetrou nos pulmões, tossi, acendi um cigarro, o estômago doeu, peguei o rumo da cantina, uma data projetou-se em minha mente. 12 de abril, o rio estaria na sua cota mais baixa, a segunda fase do desvio a ser executada, eu, o poder absoluto, faria acontecer, eu, o poder máximo, comandava cinco mil operários, eu, o mágico, dispunha de milhões de dólares em equipamento, eu... Minhas mãos crisparam-se no volante, a respiração ofegante fez-me jogar o cigarro pela janela, naquele preciso instante a sensação de felicidade envolveu-me com irresistível doçura.

 

— Quase chegando, doutor — escutei. As palavras do motorista irritaram-me, já fizera cem, mil vezes esse caminho, duas três vezes por dia, uma eternidade, da residência ao canteiro da obra. Ao longe a visão noturna assustadora, dezenas de luzes piscando em meio à bruma do vale. Poeira? Não dava para distinguir, o martelar das perfuratrizes penetrava nos  ouvidos, o ronco entrecortado dos scrapers e tratores completava a harmonia, com certeza, foi nesses sons que Schomberg se inspirou ao compor suas dissonantes sinfonias, ou talvez Thelonious  usou-os nas suas peças jazzísticas, comecei a rir, diletante das artes, o pessoal zombava, não me incomodava, até gostava, a todo o momento eu citava escritores, compositores, diretores de cinema, era o modo que dispunha para espantar a reclusão.

 

— Que foi, doutor? Como explicar que deixara para trás centenas de CDs, estantes cheias de livros, dezenas de vídeos e viera isolar-me neste fim de mundo? Não saberia como. Para alguém entender, teria que desvendar meu passado, o passado estava longe, enterrado num país balcânico, na herança bíblica iniciada com o êxodo do Egito, oculto no peso atávico irremovível, escondido na sabedoria da Torah, meu pai, meu pai, você não me libertou, impôs-me a sua autoridade. O dilema na minha alma de engenheiro errante e de meus reais anseios ainda perdura,  pergunto-me se não cometi uma tolice ao lhe obedecer, a hipocondria que atola meu ser é insuportável, sinto-me acabado, meu sistema nervoso não foi feito para essa quantidade de afecções deprimentes, pouco estéticas, perco-me em mim mesmo, tateio atrás de mim mesmo, um cão atrás do próprio rabo...

 

—Doutor, como vai acabar essa bagunça? A lembrança da manhã continuava ainda. Senti a boca seca, depois de dezenas de cigarros perdera o paladar, meus dentes se atritavam ao pó de pedra misturado à saliva, a estrutura da barragem despontava ameaçadora de dentro da rocha escavada, o ritmo incansável da concretagem, o som metálico dos vibradores, o vaivém dos scrapers na jazida, os tratores empurrando blocos de pedra, tudo pulsava ao  redor, do fundo do canal de fuga sentia-me todo poderoso, tinha certeza, 12 de abril, 12 de abril...

 

— Doutor! — o encarregado interrompeu o devaneio — os meganha fuzilaram um dos nossos no acampamento. Eu tremia dentro da japona, o frio, o medo e a incerteza deixaram-me febril, minha existência, eterno desafio, não desafiou o seu pai e agora você quer se redimir, repetia sem cessar uma voz interior, infantilidade, você é maluco, quer atos heróicos, um possuído pela síndrome da auto-afirmação...

 

— Doutor, estamos quase chegando. As luzes do acampamento surgiram à frente, o vidro embaçado tornava fantasmagórica a visão, estremeci, o gulag está próximo, homens sem futuro e com passado duvidoso ali residiam, amontoados em quartos com beliches, sem lazer, sem mulher, homens que pegavam no pesado, e recebiam salário mínimo como recompensa, no entanto, eram o coração da obra, eu os entendia, mas nada fizera para mudar o status quo, seguia as regras, eu também lutava pela sobrevivência, Deus meu, qual era o mal da embriaguez, a bebida  é refúgio, anestésico do desespero, visão fugidia do nirvana, Deus, Deus, onde está Vossa misericórdia, mataram uma das Vossas ovelhas...

 

— Doutor, olha o fogo, tocaram fogo. Mais lembranças do dia. O tenente da milícia recebeu-me cortês, senta doutor, permaneci de pé, o relato verbal foi sucinto, o elemento não obedeceu à ordem de parar, avançou ameaçadoramente em direção ao praça, este não teve alternativa e atirou, infelizmente, ocasionou a morte do elemento, mas, tenente, um embriagado? Seria fácil subjugá-lo, doutor, temos que impor a ordem, despediu-se seco. Consegui a promessa da milícia de permanecer no quartel nas próximas vinte e quatro horas, o confronto tinha que ser evitado.

 

A caminhonete atravessou o portão, parou no pátio, saltei. Sete Léguas, o baixinho, espécie de mascote, puxou-me pela manga, doutor, socorro, vi o sangue escorrer pela sua face, olhei ao redor, rostos amedrontados fitavam-me, doutor, eles bateram em nós, nós dormindo, nós que tavam no chuveiro, na casinha, em todos, todos...

 

Vidros estilhaçados, portas arrombadas, um vaso de louça partido, a luz morna dos postes envolta em fumaça confundia as sombras, levem os feridos para o hospital e apaguem o fogo, ordenei, não ouvi o sim senhor, aproximei-me do destacamento, mosquetes em posição de tiro, o tenente à frente de arma em punho...

 

— Fizeram arruaça, doutor, rece... Quis voltar ao passado, mas qual dele? Tinha tantos... Voltar à dolce vita do English school, ao verão na Côte d'Azur, aos tempos do bombardeio da Luftwaffe sobre Londres, ao pecaminoso prazer de Copacabana, voltar às polpudas per diem  do pai, às perdidas amizades do clube de remo, ao exílio imposto no interior de Minas, mas só a lembrança da falência material da família me perseguia. Voltar é sempre ruim, o caminho através da porta da mente é doloroso, teria que viver mais vinte, trinta anos, para que eu pudesse saber quem eu era, porque me encontrava aqui nesse preciso momento, o mundo que cresci era melhor do que esse em que vivo hoje... — ...bemos ordem , tivemos que controlar a situação... Senti medo, vi os operários aglomerados ao redor, formara-se um ringue, não haviam rostos amedrontados, apenas curiosos, alguns sorriam, o verdadeiro inimigo era eu, candangos e milicianos eram a classe inferior, os oprimidos. Eu representava o patrão, era o responsável pelas suas vidas miseráveis, alçapão do destino, o morto nada significa para eles, nascem com a morte, vivem com a morte, já mataram, já enterraram filhos, irmãos, pais, atingidos pelo desleixo da sociedade, acendi um cigarro, queria ganhar tempo, queria não estar aqui, os outros tinham razão. O jantar farto, servido por garçom de libré, não apetecia, ela, sentada ao seu lado, conversava animada com os outros dois, diretor e assistente, recém-chegados do Rio, que sapato elegante a senhora calça, veio visitar seu marido? Ele merece, seu futuro está garantido, a próxima viagem a senhora fará com o nosso jatinho, traga também um dos filhos, não, não, é promessa, o que acha da nossa residência? Verdade, é luxuosa, mas temos que agradar o pessoal do governo, aliás, deve dar um puxão de orelha no seu marido, ele depenou a todos no pôquer, sim sei, sabemos que ele é competitivo, concordamos, tem que ser para enfrentar... Eu odiava essa conversa fútil, não a recriminava, fazia o seu papel, jamais conseguira disfarçar o desagrado no meu rosto, já me disseram inúmeras vezes "cara, vê se te manca, tua cara agride...". Eu tentara debater o incidente da tarde, desconversaram, isso acontece, não esquenta, obra é assim, coisas da vida...

 

Duas tragadas no cigarro, joguei-o no chão, pisei em cima com a bota. — O combinado, tenente? Grossos bigodes desafiavam. — Viraram um carro. — Não me parece que agiu de modo inteligente, respondi e senti logo que não usara as palavras adequadas. — Desculpe-me o palpite — falei sem firmeza — talvez meu pessoal tenha exagerado... Minha posição, eu sabia, enfraquecera, senti meu rosto tenso, esfogueado, a roda de homens aumentava, o olhar dos candangos era mais incômodo que a arma apontada. Eu, o  perdedor, o bobo da corte, merecia estar nesse fim de mundo, isso é ser engenheiro?  Não fui talhado para ser  John Wayne, Gary Cooper, é meia-noite, não é meio-dia, High Noon está longe, droga, isso é hora para pensar em filme? Olhei por cima dos ombros do homem à minha frente, um pelotão de vinte meganhas em fila dupla, cassetete numa mão, mosquete na outra, rostos indecifráveis na sombra dos capacetes, não tinha dúvida, obedeceriam cegamente à qualquer ordem, serão analfabetos? Com certeza, de onde são? Irmãos de origem e da ignorância em confronto, eu, o intelectual, regredindo à primata, de que lhe serve todo esse saber? Vi-me estendido no chão, sombras em volta, cochichos, não quero padre, não... O som seco do engatilhar assustou-me. — Tenente, guarde sua arma. Ouvi tosses, ouvi risadas, o homem à minha frente parecia divertir-se, coloquei a mão sobre a arma apontada, por favor, tenente, o suor escorregou da nuca dentro da camisa, isso não é jogo de pôquer, seu idiota, pensei, nem um romance de Paul Auster, lá vou eu com essa mania, minha mente invocou Deus e o Demônio, os ruídos longínquos da obra não são trombetas dos santos alados, desista, ninguém liga para essa baboseira, senti-me um tolo, apertei  os dedos, a mão armada cedeu, virei o rosto, deu tempo ao tenente para guardar o revólver. — Tenente, mais um favor, manda seu pessoal baixar os mosquetes. O cerco dos homens cada vez mais próximo sufocava-me, o odor de suor e cachaça entrou pelas minhas narinas, senti ânsias de vômito. — Tenente, obrigado, agora dê ordem de meia volta, volver. Pés arrastaram-se sobre pedriscos, o odor de suor e cachaça mais próximo. — Tenente, o pessoal cercando. Sim senhor, sim senhor, voz solitária, depois mais outras, todos em coro, tive vontade de gritar "Parem! Parem! Não agridam!". Mas permaneci calado, imóvel, sabia que a exclamação coral não passava de deboche jocoso dirigido a mim, sorri, ainda vou levar a melhor. Olhei o relógio, duas da madrugada, faltavam cinco horas para a mudança de turno, escutei a ordem dada pelo tenente, vi a tropa retirar-se em silêncio pelo corredor humano aberto no meio dos operários, esperei o último meganha sumir na noite, coloquei um cigarro entre os lábios, apaguei a chama do isqueiro, chamei um dos encarregados: — Junta o pessoal! — Sim senhor. — Todos pra revezar o turno da noite! — Mas, doutor, se me permite... O movimento da minha mão calou-o. — Todos! — Sim senhor! Joguei o cigarro aceso no chão, apaguei-o com a bota, fora um aperto, mas tudo estava resolvido. Voltei à casa de hóspedes, ela e os outros me aguardavam. — Como foi? Ouvi, não respondi. Peguei minha mulher e fui para a minha choupana. 

 

Orgulho-me para sempre desta noite, foi em 1973.

 

 

 

 

(Trecho do livro Memória Tumultuada, 2002)

 

 

 

 

 

 

A Melhor Faceta de Iosif Landau

 

Por Rodrigo de Souza Leão*

 

Toda memória é uma bagunça. Ninguém tem a capacidade de se lembrar de tudo de uma forma organizada e com flashbacks ordenados em ordem cronológica. Lembramos de um fato acontecido há dez anos, depois de outro há vinte, e outro há dois anos. Não existe uma ordenação temporal quando tratamos da memória. E um livro de memórias tumultuado? Como seria se o escritor assumisse uma memória bagunçada?


Esta é a proposta de Iosif Landau ao escrever Memória Tumultuada pela editora Papel & Virtual.  No livro Iosif mostra-nos como — ao seu modo — foi personagem da História e como pode influir na própria história do Brasil.

 
Tudo começou na Romênia, país de origem da família Landau, de onde fugindo do nazismo — graças à riqueza e os ardis do pai de Iosif —, parte da família veio morar no Brasil. A viagem de volta. A chegada ao Brasil. A riqueza ao Rio de Janeiro. A dificuldade financeira. A volta por cima. Os amores. Os dissabores. A riqueza. A vida dura.

 
Espaço para declarar o amor: uma das partes mais emocionantes do livro é a que Iosif declara o seu amor pela mulher. Ao lado de um grande homem sempre está uma grande mulher. E da forma como o bom romeno descreve sua adoração por Lia, podemos ver que só os fortes sobrevivem e também, que atrás de cada coração existe uma chama ardendo: a chama do amor sincero. Mas não só do amor homem e mulher é que o autor de Memória Tumultuada nos brinda com palavras de enlevo. Também em posição alcandorada coloca o amor aos filhos, à mãe e aos amigos. Estes últimos são três senhores remadores do Botafogo — clube onde Iosif fez remo e foi competidor vitorioso.

 
Há momentos singelos como os que o memorialista nos diz que ninguém mais se cumprimenta com abraço e a juventude não sabe se situar diante de um garfo e uma faca, não sabendo se comportar à mesa.


Só não gostei de uma lamentação de Landau: a de não ter ficado rico. Iosif Landau é um dos homens mais ricos que conheço. Rico
em dignidade. Um espírito elevado. Um homem elegante, refinado, a quem a materialidade não faz falta. Como ele mesmo nos mostra, o fato de não ter ficado rico como o seu pai fora — ou de não ter levado uma vida adulta como a da infância de luxo —, só ocorreu porque preferiu o caminho da lisura, do bom caratismo, da honestidade, tão rara na vida pública nos dias de hoje. O homem Iosif é um homem do século XXI. Um homem que vive do seu presente. Que sabe que — por mais que as coisas boas da vida tenham ficado na lembrança — sempre há motivos para amar o hoje.

 
Nem todo mundo tem o que contar num livro de memórias. Não é o caso de Iosif Landau, um homem que viveu como poucos todos os momentos de sua vida. Um homem que deve se orgulhar do seu passado e do seu presente. E do futuro também: já que muita coisa ainda está por vir para o escritor, a melhor faceta de Iosif Landau.

 

 

*Rodrigo de Souza Leão. (Rio de Janeiro, 1965), jornalista. É autor do livro de poemas Há Flores na Pele, entre outros. Participou da antologia Na Virada do Século — Poesia de Invenção no Brasil (Landy, 2002). Co-editor da Zunái — Revista de Poesia & Debates. Edita o blogue Lowcura.