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— Abelardo, mais do mesmo!

 

Homem alto e magro e de rosto pálido estava impaciente, copo vazio em sua mão. O barman movimentou-se com elegância, levou a garrafa aos três homens sentados à sua frente, encheu os copos, afastou-se discreto, quase na ponta dos pés.

 

— Abelardo, estranho nome para um barman.

 

— sim — falou o louro alto e encorpado, jeito de atleta envelhecido — ficaria bem num cara de batina...

 

— Heloísa e Abelardo, uma bela história de amor da Idade Média — respondeu o moreno baixo, de óculos, rosto sem cor de quem vive em escritório.

 

— "fujo para longe de ti / evitando-te como a um inimigo / mas incessantemente / te procuro em meu pensamento / trago tua imagem em minha memória / e assim me traio e contradigo / eu te odeio, eu te amo" — recitou o barman — carta escrita por Abelardo para Heloísa.

 

Misty na voz de Etta Jones soou como ode ao amor impossível.

 

— sua mãe exigiu que memorizasse? — perguntou o louro algo debochado — seu pai não achou ruim?

 

O barman não se alterou, continuou enxugando os copos, fazia parte da profissão ignorar a agressão dos fregueses bêbados.

 

 

 

(Trecho do livro Abelardo e Outros Contos, 2004)