— Abelardo, mais do mesmo!
Homem alto e magro e de rosto pálido estava impaciente, copo vazio em sua mão. O barman movimentou-se com elegância, levou a garrafa aos três homens sentados à sua frente, encheu os copos, afastou-se discreto, quase na ponta dos pés.
— Abelardo, estranho nome para um barman.
— sim — falou o louro alto e encorpado, jeito de atleta envelhecido — ficaria bem num cara de batina...
— Heloísa e Abelardo, uma bela história de amor da Idade Média — respondeu o moreno baixo, de óculos, rosto sem cor de quem vive em escritório.
— "fujo para longe de ti / evitando-te como a um inimigo / mas incessantemente / te procuro em meu pensamento / trago tua imagem em minha memória / e assim me traio e contradigo / eu te odeio, eu te amo" — recitou o barman — carta escrita por Abelardo para Heloísa.
Misty na voz de Etta Jones soou como ode ao amor impossível.
— sua mãe exigiu que memorizasse? — perguntou o louro algo debochado — seu pai não achou ruim?
O barman não se alterou, continuou enxugando os copos, fazia parte da profissão ignorar a agressão dos fregueses bêbados.