— Alfredo?
Educação me cutucou, com pernas inseguras me levantei:
— sim?
— sou Tereza!
Segurei a mão estendida, beijei como era praxe na corte de Napoleão, o dorso de sua mão, adoro sentir nos lábios a pele macia perfumada de mulher e elas tão sabidas, instintivas, amolecem a mão entre os dedos, encontro elegante no meio do caminho, na medida certa para a reverência, fração de segundo a mão na minha, se desvencilha e apronta um sorriso de surpresa, coquete, satisfação e um tiquinho de superioridade, homem se baixando diante da deidade, abençoadas mulheres:
— como soube meu nome?
Sorriu:
— vamos sentar?
Puxei uma cadeira:
— quer beber algo?
— não obrigada, foi sua prima quem me disse quem era, depois que perguntei, estava intrigada com...
— ...a minha solidão?
Não ouvi a resposta, estava entretido em observar seu rosto, trinta e poucos anos, tremendamente atraente, seriam os lábios? os olhos? a pele? impossível definir, não era muito alta, pouco menos de 1.70, esguia, vestido preto de alças e algo de um tecido transparente e leve cobrindo os ombros, minha experiência me dizia que se tratava de uma fausse maigre, tiram a roupa e aparecem belas, certinhas, maravilhosas.
— ...caladão, bebendo um pouco demais, fumando muito, tive a impressão de energia latente, prestes a explodir.
— parou de me examinar?
— mil perdões, vício da profissão,
— não precisa se escusar, eu também a examinei, rosto poderoso, forte, os olhos mudam, de luminosidade irônica para dura desconfiança. Odiava esse tipo de conversa, incursão na intimidade, mudei de assunto.
— seu cabelo não é vermelho...
— devia ser?
— não, pelo contrário.
— por quê?
— sou supersticioso, gato preto, apagar fósforo com sopro, passar por baixo de escada, Judas tinha cabelo vermelho, a mulher que dedurou Dillinger tinha, dizem que Jack o Extirpador era ruivo.
— mas a sua camisa é preta, não falou que não gostava de gato preto?
— e também tenho camisa vermelha, em mim essas cores não me perturbam, gosto das cores que se mesclam com o soturno, o lúgubre, o gótico, os grandes pintores não pintavam a claridade, l'aube du jour, veja a obra de Caravaggio, Goya pintava durante a noite à luz das velas, queria ver as sombras, a maioria das mortes ocorre na madrugada.
Acendi outro cigarro.
(Trecho do livro Eu, Investigador, romance policial, 2004)