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Fizeram o trajeto em silêncio, o ex-comissário estava pensativo, não gostava do que ia fazer, mas dívida era dívida, favores se pagam com favores, precisava se livrar. Na Rodrigues Alves mandou parar num canto escuro debaixo da Perimetral.

 

— Desce! — falou.

 

O taxista hesitou...

 

— Doutor, me perdoa, mas...

 

— Desce! — falou de novo Alfredo.

 

Desceram quase ao mesmo tempo, o ex-comissário aproximou-se do mulato sestroso, segurou-o firme numa gravata e bateu com o punho direito na cabeça presa no seu braço esquerdo, cansado, afastou-se, o taxista caiu de joelhos e assim ficou por algum tempo, Alfredo massageava a mão direita, o surrado, com a cara empapada de sangue levantou-se, encostou-se ao carro.

 

— Doutor...

 

Alfredo aproximou-se, segurou-o pelo pescoço.

 

— Camaradinha, nada contra a foda, por mim pode enrabar até a tua mãe, agora, meu camaradinha, regra número um, nunca freguesa, número dois, nunca embebedar a dita, número três, nunca fazer ela pagar a conta, número quatro, uma vez basta e número cinco, nunca, nunca mesmo, a mulher de um delega, sacou?

 

Alfredo ainda não terminara a tarefa, havia algo mais a fazer, coisa safada, acendeu o cigarro, colocou um outro já aceso nos lábios inchados do rapaz, fumou em silêncio, jogou a guimba no chão, abriu a porta do carro, empurrou o cara para dentro, sentou-se ao seu lado.

 

 

 

(Trecho do conto "Táxi", publicado em Crime Feito em Casa — Contos Policiais Brasileiros, org. Flávio Moreira da Costa, Editora Record, 2005)